Por Marcos Faber
Em 1º de abril de 1964, tanques, jipes e carros blindados do
exército brasileiro transitaram livremente pelas principais avenidas das
capitais do país. Motivo: manter a segurança, pois o presidente João Goulart havia
sido deposto por um Golpe de Estado articulado por civis e militares
descontentes com o governo Jango.
Mas, o Golpe Ditatorial não foi obra do acaso ou algo
decidido na última hora. Na verdade, a deposição do presidente Goulart vinha
sendo orquestrada desde antes de sua posse em 7 de setembro de 1961. Tudo
começou quando o então presidente Jânio Quadros, após 9 meses de governo,
renunciou à presidência. A Constituição previa a posse do vice-presidente João
Goulart. Entretanto, Jango estava em visita diplomática à China comunista.
Aproveitando-se disso, autoridades militares tentaram depor Goulart antes de
sua volta ao Brasil. Em resistência ao Golpe, iniciou no Rio Grande do Sul uma
campanha em favor do cumprimento da Constituição. O governador gaúcho Leonel
Brizola liderou a denominada Campanha
da Legalidade. Vitoriosos, os legalistas viram a posse de João
Goulart como o 24º presidente do Brasil.
Entretanto, os golpistas não estavam satisfeitos e mantiveram-se
em campanha contra o governo de Jango. Entre setembro de 1961 e março de 1964,
o presidente sofreu boicotes dos principais grupos oligárquicos brasileiros,
nem mesmo o Congresso Nacional apoiava o presidente.
Por outro lado, Jango era exaltado pela intelectualidade de
esquerda, apoiado pelos sindicatos, pelo Partido Trabalhista do Brasil (PTB) e
pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB). Apoios que descontentavam ainda mais a
oposição. Com isso, lideranças civis e militares passaram a conspirar pela
deposição de Jango, pois o presidente representava um entrave aos interesses do
capital internacional no Brasil, assim como aos interesses das ricas elites que
comandavam o país desde o período imperial. Assim, em 1º de abril o presidente
foi deposto. Jango fugiu exilando-se no Uruguai.
Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara Federal assumiu a
presidência interinamente. Porém, era uma junta militar (comandada por Costa e
Silva, Médici e Castelo Branco) quem comandava o país. Os principais veículos
de comunicação brasileiros exaltaram a queda de Jango (ver imagem ao lado –
jornal O Globo). Periódicos (jornais e revistas) de apoio ao ex-presidente logo
foram fechados ou tiveram a circulação suspensa. A sucursal do jornal Última
Hora em Porto Alegre foi fechada e entregue a um grupo de empresários que
apoiavam os militares. Estes, aproveitando-se dos maquinários do extinto
periódico, fundaram o jornal Zero Hora. Entretanto, a Última Hora continuou a
ser editada no Rio de Janeiro até 1969.
A partir daí a perseguição aos opositores foi implacável.
Inicialmente o Ato Institucional número 1 (AI-1) cassou o mandato de 100
políticos brasileiros, entre eles estavam os ex-presidentes João Goulart, Jânio
Quadros e Juscelino Kubitschek. A censura foi restabelecida e o Congresso
Nacional fechado.
Após os golpistas se instalarem no poder, ocorreu um período de
relativa paz, que durou até a segunda metade de 1968. No entanto, como as
oposições ao regime se intensificaram, o presidente Marechal Costa e Silva
lançou o Ato Institucional número 5. O AI-5 intensificou o regime e a
repressão. Milhares de pessoas desapareceram da noite para o dia, a tortura
tornou-se rotina. Intelectuais, músicos e escritores de esquerda foram
obrigados a deixar o país. Ninguém podia falar mal do governo.
Após a morte de Costa e Silva (17 de dezembro de 1969), o Marechal
Emílio Garrastazu Médici tornou-se presidente da República. Médici deu
continuidade à opressão iniciada por seu antecessor. Slogans como o “Milagre
Econômico”, referência ao crescimento econômico do país, e “Brasil: Ame-o ou
Deixe-o”, recado aos opositores, passaram a ser parte da campanha de Médici
para atenuar o discurso da oposição e ter o apoio popular, fato que conseguiu
principalmente ao explorar a vitória brasileira na Copa do Mundo de 1970.
Após o lançamento do Ato Institucional Número 5, qualquer
articulação de oposição ao governo era ilegal. Muitos intelectuais e políticos
contrários à ditadura foram obri-gados a deixaram o país. Tirinha do cartunista
Ziraldo.
Em março de 1974 assumiu a presidência Ernesto Geisel. Para azar
dos milicos, o governo Geisel coincidiu com o fim do “Milagre Econômico”, em
decorrência da crise internacional do petróleo de 1973. Desgastados, os
militares iniciariam uma abertura “lenta e gradual” do regime.
Em 1979 foi promulgada a Lei da
Anistia. Assim, os exilados políticos puderam retornar ao Brasil.
Políticos como Leonel Brizola e Miguel Arraes, músicos como Chico Buarque e
Gilberto Gil, intelectuais como Nelson Wernek Sodré e Luís Carlos Prestes
puderam retornar ao país. Porém, a lei também perdoou a todos os torturadores e
agentes do governo envolvidos com o Golpe.
Finalmente, em 1985, a ditadura chegaria ao fim com redemocratização (José Sarney governaria o país entre 1985-1989) e o estabelecimento de eleições presidenciais diretas, que ocorreriam somente em 1989.


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